terça-feira, novembro 12, 2013

Esperando Lorenzo




Todos nós nascemos originais e morremos cópias - frase atribuída a Carl Jung. Mais uma vez estou esperando um sobrinho e isto é maravilhoso. Primeiro porque é muito bom ser tio, segundo porque minha irmã e seu marido estão felizes com a chegada do próximo filho e é assim que todo mundo deve vir ao mundo, ou seja, desejado. Terceiro porque eu adoro crianças, mas sei que os rebentos crescem, ficam caros e, sendo pobre e sem aptidão para negociar meu tempo e vida com outro ser humano que eu não possa por opção mandar à merda, não terei filhos. Por fim, acima de qualquer desejo ou anseio de quem quer que seja, mais uma vida surge para nos mostrar, entre tantas coisas, o quanto não valemos nada, absolutamente nada. A vida corre por si e, em certa medida, isso se dá independente até mesmo de quem a vive.

Quanto ao bebê que desponta por aí, chama-se Lorenzo e desbancou nomes como Noah, Vicente e Ignácio. Ao que tudo indica, chega em fevereiro como a mãe Susana e a prima Cecília. Eu gosto bastante dessa ideia de pertencimento zodiacal mesmo não entendendo nada de astrologia. Quero que ele seja feliz e viva em um mundo onde as pessoas possam dizer, agir, serem exatamente aquilo que tenham vontade sem que esta seja uma postura subversiva, mas apenas mais uma forma de ser e estar. Torço para que, assim como o seu irmão, seja muito amado, inteligente e vibrante e tenha força para enfrentar a existência – este exercício árduo e desagradável com poucos, raros e intensos momentos de felicidade.

Meu muito amado sobrinho, confesso que estava meio sem vontade de escrever a ti porque ando há muito sem gosto por esta ação. Porém, desde que nossa Vó Laura se foi, fiquei pensando no quanto ela estava feliz com o seu nascimento e certamente rezando para que tudo corresse bem, tanto em sua gestação como no dia do parto que ainda vai acontecer. Além disso, que não é pouco, você será muito provavelmente a grande notícia boa depois desta dor imensurável e isso já me aquece o coração, faz com que eu vença minha falta de ânimo e pense em algumas palavras de boas vindas como fiz com Dante e Cecília com mais inspiração, mas com o mesmo imenso e puro sentimento que já dispenso a ti. O dia que sua mãe colocou a imagem de seu rostinho fotografado de uma ultrassonografia pensei “que venha feliz, que seja feliz, que faça feliz” e, certo de que tudo isto é possível, espero ansioso pelo dia em que o teremos nos braços, contemplando infinitas possibilidades.

Você, Lorenzo, não tem compromisso algum! Seja como der, quiser e puder que estamos aqui de braços e corações abertos plenos de amor para dar e, caso queira ouvir um bom conselho dos muitos que eu lhe darei de graça, exercite a tolerância, mas com firmeza e saiba que o mundo está infestado de brutos e idiotas. Portanto, paciência e talento para não se amargurar que esta vida é de luta, lhe dá bem menos do que cobra. Desconfio eu que choramos ao nascer por nos depararmos com este imenso cenário de dementes. Saiba que, estranhamente, com tudo isto, viver pode ser uma imensa e bela aventura.

Voltando ao Carl Jung, faça de ti uma incrível versão. Boa sorte!

Só se for a dois, a três, de quatro...


"Eu disse não
Ela não ouvia
Mandei um sim
Logo serviu
Então pensei
Ela é bela
Porque não com ela
Sexo é bom!
Hum!"
(fragmaneto da letra Difícil - Marina Lima)

Acabo de chegar de uma festa com poucos e bons amigos. A questão é que de uns tempos pra cá tanta gente me conta coisas delicadas que isso, confesso, acabou me deixando intrigado.

Hoje foi a vez de um amigo que, bem preocupado, relata que "brochou" com a namorada por três vezes nas últimas semanas e como ele estava um tanto "alto" de uísque, sugeri que falássemos sobre o assunto na cozinha, pois alguém poderia ouvir e mesmo que isso seja algo natural é sempre bom mantermos uma certa discrição sobre a nossa vida sexual. Eu mesmo tenho pouca gente que sabe - de fato - da minha porque não a julgo, como dizer, publicável, e percebo que o que acham e dizem por aí é sempre melhor, mais excitante e perturbador do que a vida real. Aliás, prefiro que seja assim porque antes ser uma lenda do que uma personalidade insossa. Agora, voltando ao caso, vou reproduzir o diálogo:

Ele: Lucas, você já brochou?
Eu (surpreso): Eu?! Como assim? O que te falaram?
Ele: Cara, é sério! Eu pergunto porque isso tem acontecido comigo. Quer dizer, aconteceu umas três vezes nas últimas semanas...
Eu (mais calmo): Huuummm... não que eu tenha brochado, mas já saí pela tangente por saber que brocharia.
Ele: Como? Pau fica duro ou não!
Eu: É... na dúvida eu não abaixo as calças.
Ele: Ah! Você nunca achou que ia e não foi?
Eu: Fulano, deixa eu te explicar uma coisa: eu só faço o que eu quero! Foi sempre assim! Eu não transo por obrigação! Não gosto disso, acho triste, vulgar, feio mesmo! Mais do que isso: acho deformação de caráter! Se eu tiver que escolher entre saciar a mim mesmo e ao próximo, escolho sempre a primeira opção. Sexo só é bom se for real, entende?
Ele: Mas... você acha que eu estou com algum problema?
Eu: Não sou médico e nem psicanalista, mas... você é tão novo para estar com alguma disfunção física. Não que isso seja impossível, mas é um pouco improvável. Escuta, você transa com outras garotas? Como é?
Ele: Ah! Não... no começo do namoro transei, mas de uns tempos pra cá tenho sido fiel a ela.
Eu: E quando a beija, quando está com ela você pensa em outras?
Ele: Claro que em algum momento da transa penso em alguma mulher gostosa, mas estou com ela, gosto de estar com ela.
Eu: É... não sei o que pensar! Tenho medo de, sei lá, atrapalhar mais do que ajudar. Agora, só uma coisa: o que fez você me contar isso?
Ele: Precisava falar com alguém e pensei que ninguém seria mais direto. Você fala das coisas de maneira bem rápida.
Eu: hahahahahahaha... entendo! Bom, acho que o meu conselho pra você e pra todo mundo em relação a sexo é: não faça nada por obrigação! Sexo só é bom se for, de fato, uma realização de desejo.

A conversa não parou por aí, mas chegou no ponto que me interessa. Há bem pouco tempo uma amiga confessou que em sua vida matrimonial acaba transando sem vontade porque o marido insiste. Fiquei completamente embasbacado com tal confissão e pensei que não se pode aceitar que, nos dias de hoje, depois de tantas conquistas conseguidas com lutas, sendo muitas delas sangrentas, haja alguma mulher que se sujeite a isso. Fiquei bravo e disse que era ignorância ceder sem vontade, que se tratava de uma imposição cultural, de um atraso, de burrice e ignorância. Agora, olhando de longe, talvez tenha sido insensível e não dei o colo que certamente ela buscava. Por outro lado, quem vem falar comigo, talvez, queira isso mesmo, ou seja, a tal "maneira bem rápida" e pouco lapidada. Tudo isso, claro, é uma suposição, mas acho que bem fundamentada.

Não vou me alongar mais por não ser sexólogo. Porém, se alguém quiser saber o que eu acho primordial para uma vida sexual gostosa como deve ser, há apenas duas formas: a primeira é transar comigo e a segunda, bem mais simples e geral, é ler "um bom conselho que lhe dou de graça". Saiba dizer sim e não quando couber, invada, mas sempre pedindo permissão e se para caber tiver que fazer ajustes que lhe fira é porque algo não vai bem. Sexo a dois, a três, de quatro ou seja lá como for, só pode haver masturbação se for provocativa e não a única saída.

terça-feira, janeiro 15, 2013

O Intangível


“Um homem que está livre da religião tem uma oportunidade melhor de viver uma vida mais normal e completa.”
Sigmund Freud

Mesmo tendo o maior respeito e reverência pelo Freud e tudo o que ele nos legou, discordo completamente disso. Embora entenda que a fé cega e acrítica acaba por transformar as pessoas em seres idiotizados e insuportavelmente babacas, sei que existem outras maneiras de venerar o inexplicável e ainda assim ter uma vida completa. Particularmente, tive uma formação católica pelo fato de ter estudado em colégio de freiras e me lembro inclusive de, lá pelos sete anos, ter dito a minha mãe que seria Padre e pedido para ser interno em uma instituição dessas. Porém, para minha sorte ela, já meio cabreira e dada a benzedeiras kardecistas, não me atendeu. Caro e escasso leitor, imaginem esse ser que vos fala em um seminário! A questão é que eu acreditava piamente em Jesus e Nossa Senhora! Aliás, eu adorava Maria fosse ela preta ou branca e quando passava na frente de uma imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, que ficava em frente à escada da minha casa na época, fazia-lhe uma reverência silenciosa. Quanto ao Jesus crucificado, não me pegava muito, não! Preferia a imagem dele ainda criança com o globo na mão que há na capela do Educandário até hoje e devo dizer que, fervoroso em minha fé, era uma criança completamente feliz e satisfeita porque não havia o medo e eu tinha plena certeza de que Deus estava comigo.

Passam-se alguns anos, cresço um pouquinho, inauguro uma fase meio punk questionadora e minha fé foi para o “beleléu”! Tenho a impressão de que passei a maior parte da vida sem acreditar em nada e toda aquela certeza de proteção e felicidade acabou! Enterrei-me na biblioteca pública e lia por conta apenas o que realmente quisesse. Tudo o que não interessava eu coloquei no campo das coisas que não mereciam minha atenção e disponibilidade. Aliado a isso, havia meu pai que é cético até a medula e minha mãe que por ética achava que não devia impor a mim a sua crença. Lembro de uma vez em que, numa reunião de amigos, uma senhora penapolense ligada nessas coisas de ufologia a ponto de promover reuniões em sua casa com um grupo, disse ao meu pai que um extraterrestre havia estado com ela na alta madrugada. Eu que estava do lado não consegui nem olhar direito para cara dele por medo de gargalhar na frente dela, dando uma respirada funda para me conter. Ele olha para ela assustado e pergunta: Mas... você estava sóbria?! Nesse momento saí e fui buscar alguma coisa na cozinha e longe dali descarreguei meu riso contido! Como eu também achava tolo ser crédulo, acabei me envolvendo em algumas situações desnecessárias do tipo dizer em uma aula de ensino religioso que, sendo Maria casta na concepção ela perdeu a virgindade com o filho, pois me disseram lá em casa que a mulher é virgem enquanto ainda possui o hímem. Óbvio que não me disseram assim e nem foi em casa que se deu a tal “revelação” e sim na rua de forma bem vulgar. Algo como: “a garota é virgem porque não perdeu o cabaço, não deu a boceta”. Assim fiquei por muito tempo, ou seja, crendo com tal força em minha descrença que acabei por transformá-la em uma forma de fé.

Acontece que os anos foram passando e eu meio sem perceber acabei me voltando para esse campo novamente a partir do momento em que descobri os cultos de origem africana ou, como se diz por aí, a macumba e principalmente quando me dei conta de que as minhas certezas não elucidam tudo e então abri novamente a porta para a dúvida, mas dessa vez menos pedante e mais atento. Hoje frequento um centro quase que semanalmente, converso com as entidades, arrumo briga com elas, peço conselhos, levo bronca, reverencio a eles e aos Orixás e não tenho a menor dúvida da minha fé – mesmo sendo um praticante rebelde - porque o questionamento está em mim tanto quanto a vida profana e é nesse sentido que eu discordo do Freud, pois eu faço tudo o que quero como, onde, com quem e quando tenho vontade. Essa é a fé que me interessa! A fé que entende e respeita minhas necessidades de toda ordem sem querer me transformar em seguidor formatado por algum grupo porque esse é apenas mais um nicho da nossa existência.

Agora, claro que não podemos ler o pai da psicanálise com os olhos de hoje mesmo tendo sido ele um homem do futuro. O próprio explica algo que vai à direção do que digo aqui. Posso afirmar sem medo de ser bobo ou leviano que a fé não me comprime, ao contrário, ela me expande e isso, claro, é muito pessoal!

“A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz”
Sigmund Freud

quarta-feira, outubro 03, 2012

Doce Espera





Certa vez a Anna Sílvia, que era uma excelente professora de redação no colegial, passou a letra de Teresinha do Chico Buarque para que fizéssemos uma releitura e eu me levantei, fui até ela e perguntei até um pouco pedante se podia fazer algo diferente, carregado e com muitas palavras de baixo calão. Ela, inteligente que só, respondeu que eu tinha total liberdade e que a correção se ateria apenas à construção textual (ortografia, gramática e semântica), dando um exemplo ótimo: "Eu não ligo que você escreva caralho desde que não seja caráleo, entende?"

O fato é que eu fiz e há pouco tempo reencontrei o rascunho. Até hoje não sei bem porque, mas eu sempre joguei fora a versão escrita em tinta no final do ano e guardo até hoje os rascunhos feitos a lápis. Aliás, eu gosto muito de jogar fora, queimar, destruir completamente e guardo uma ou outra coisa aqui no blog ou mesmo em e-mail. Acho destruir uma coisa positiva, exorcizante, higiênica mesmo! Acontece que - ao reler - me deu uma vontade louca de rever essa mulher tão controversa, romântica e maluca criada pelo compositor e simplesmente não consigo postar o texto de mil novecentos e noventa e nove sem retoques e isso porque na primeira versão Terezinha terminava louca de ciúme, desfigurando a facadas uma oponente que hoje nem me parece real. Hoje a vejo assim:

Tive três grandes amores nessa vida. Na verdade, não! Eu não tive muitos amores porque o grande amor é sempre o último ou o do momento. Logo, tenho apenas um amor e ele é o homem definitivo, único em minha vida. É dele que eu sou, para ele que eu vivo e com ele que durmo todas as noites até hoje. Vocês podem não acreditar, mas eu tive, ainda essa noite, uma madrugada de corar prostitutas senis e experimentadas. O melhor é que está tudo em detalhes na minha cabeça que é a morada de toda luxúria que possa haver.

Ele chegou quando não havia mais olhos abertos e refestelou-se, fazendo de mim o ser humano mais saciado, vulgar e sujo de que se tem notícia. Foi tanto abuso e gozo que mesmo ao me banhar para falar com os senhores ainda posso sentir aquele odor de mulher metida com força, humilhada, castigada mesmo! Ah! Se eu soubesse que bastava acabar com tudo para que ele me tratasse como tratava as putas, teria cometido tudo isso antes. Eu nunca pensei que a marginalidade, a privação, a loucura poderia ser tão libertadora! Em pensar que passei tanto tempo limpando a casa, parindo, cozinhando, cuidando de tudo com esmero para ser vista quando, na verdade, tudo o que eu queria era apenas ter uma boca vermelha, um corpo usado, um vestido brilhante, um cabelo sedoso e longo. Eu nunca gostei da vida como era, sabe? Eu estava acostumada, mas odiava aquilo tudo! Não gosto nem dos filhos! Aliás, posso fazer uma pergunta? Eu deixei tudo limpinho, né?

Bem, vocês querem saber como tudo aconteceu, não é? Posso dizer, Doutor? Eu posso?

Eu estava em casa, vendo novela com as crianças. Nossa! Como era difícil lidar com aquelas pestes! Vez ou outra até me pegava em momentos de ternura, mas logo algum chorava e implorava atenção. A atenção que eu só tinha para ele, para o meu homem e não para aquelas crianças que aconteceram em nosso lar sem pedir licença. O fato é que naquela noite ele não veio no tempo devido e eu enlouquecida de raiva pensei que algo devia ser feito e fui até a cozinha, fiz uma mamadeira para cada um com um pouco de calmante. Não tardou muito e os três dormiram rápido! Eu adoro a imagem deles dormindo porque parecem anjinhos tão cândidos e silenciados! As horas foram passando e nada dele voltar. Aquilo foi me dando uma privação mesmo e resolvi que de nada adiantava as crianças dormirem porque eu não seria mulher aquela noite. Então fui até a garagem, peguei uma mangueira de piscina e coloquei uma ponta no escapamento do carro e a outra dentro do veículo fechado. Levei os três já adormecidos para lá, os coloquei no banco de trás um a um. Ah! Como estavam lindos e bem cuidados! Eu sempre fui uma mãe zelosa! Fiquei olhando e nem sofrimento teve. Como ficaram bonitinhos, corados! Assim que percebi que eles tinham dormido para sempre ao lado do Menino Jesus e de Nossa Senhora, os levei para o quarto novamente e os coloquei em suas caminhas. Não demorou muito e logo o meu homem chegou. Eu já estava pronta com minha camisola de renda preta, banho tomado e perfumada. É engraçado tudo isso! Quando adolescente eu me imaginava casada, com filhos, esperando meu marido e na minha imaginação essa cena era tão bela, uma espera doce, afetuosa. A vida é mesmo estranha e tão diferente das cenas que imaginamos no café da manhã.

Ele: Demorei muito? Tivemos reunião até tarde hoje.
Teresinha: Você nunca está atrasado! Eu esperaria para sempre se preciso fosse.
Ele (roçando os lábios em seu pescoço): Como é bom te amar, sentir seu cheiro!
Teresinha (falando em seu ouvido): Psiuuu! Não fale! Faça silêncio! As crianças podem acordar. Apenas me ame em silêncio como eu sei que fazes na rua...
Ele (irônico): Você gosta de pensar que tenho outras! Só pode...

Ali Teresinha e o marido se amaram pela última vez, pois assim que ele adormeceu ela foi até a dispensa e pegou a linha de pesca dele - material com o qual o matou, dilacerando o seu pescoço.

Teresinha (olhando para o marido agonizante): Pensa que eu não sei o que fazes nessas pescarias, maldito?!

O marido tentou em vão se defender, mas com os sentidos comprometidos por clorofórmio que ela o fez ingerir de supetão, nada seria de grande valia. Morreu, segurando as mãos de sua, até então, amantíssima esposa.

Teresinha se levantou, arrumou tudo impecavelmente, escreveu a carta que acaba de ser lida por vocês e só então matou-se do mesmo jeito que mataste as crianças.

segunda-feira, julho 02, 2012

O Silêncio!


Outro dia, conversando com uma grande amiga, ela me perguntou o porquê de eu estar escrevendo pouco. Como não costumo pensar muito nisso, pois escrever não é um ato que me faça falta respondi que, talvez, as coisas não sejam mais tão interessantes para o meu olhar como já foram um dia. Digo isso porque me lembro nitidamente em como o cotidiano banal me despertava interesse e me dava vontade de escrever. Algumas situações eram tão desinteressantes que eu começava a imaginar em cima. Eis algumas:

Não me lembro com certeza o ano, mas sei que eu era criança e estava em um supermercado quando avisto de longe, na barraca de laranjas, minha mãe dar um tapa em público no meu pai. No momento não soube dizer se aquilo mais me chocou pelo ato em si ou se me envergonhou já que em uma cidade como Penápolis uma briga conjugal dessas proporções viraria um escândalo e eu seria filho da louca que bate no frouxo. Pensava: "Meu Deus, que horror! Eu não quero ser filho de ninguém e agora eles brigam no mercado!"

O fato é que minha mãe não bate no meu pai e vice-versa e o acontecimento se deu por causa de uma barata que, aliás, é o maior medo que eu conheço da minha progenitora. Ela já protagonizou outras cenas vexatórias/engraçadas por causa das bichinhas e enquanto escolhia as frutas, a barata roçou em sua palma, meu pai estava logo atrás e ela saiu com a mão em alta velocidade que se chocou na face de seu amantíssimo esposo completamente embasbacado com a agressão sofrida em público. Não, antes de pensar no tapa ela só conseguia dizer "Uma barata, Chico! Uma barata! Que nojo! Uma barata!"

Eu só soube a real versão alguns minutos depois, uma vez que com vergonha do que vi sem entender, achei prudente e inteligente ficar longe. O fato é que - muitas vezes - a imagem é sempre mais forte do que a versão e isso foi o que sempre me motivou a escrever. Muitos são os momentos em que olho para alguém na rua e começo a inventar uma vida completa para o indivíduo. Aliás, quando acabo conhecendo a versão real sempre acho que a minha era melhor.

Em um outro momento estávamos eu, mãe, tia e avó em uma padaria aqui em São Paulo, esperando para tomarmos sopa. Havia uma fila um tanto grande e um pouco à frente de nós uma senhora bem vestida, sua filha, genro e dois netos.

Eu: Vó, tá vendo aquela senhorinha ali?
Vó: Sim. O que tem ela?
Eu: Tenho certeza que ela é viúva de fiscal, deve ter uma pensão de uns R$ 20.000,00 e um apartamento aqui nos Jardins.
Vó (rindo): Como você sabe?
Eu: Ela não está contente! Está com cara de quem queria estar com as amigas, fumando um cigarro e jogando tranca, mas aí a filha mimada e o genro fracassado no mercado financeiro se mudaram pra casa dela e agora ela banca geral e ainda teve que mudar sua rotina. Ah! Essa aí é filha única!
Mãe (rindo): Como você é bobo!

No final a senhora pega todas as comandas e paga a conta sozinha!

Eu (olhando para as três): Não disse?
Vó (rindo): Meu cú nem penica!
Eu: Mas eu acertei!

Tem também os momentos em que eu simplesmente interajo com meus personagens e vou lá conhecer. Quase sempre sou cínico! Tenho um personagem que se chama Arthur e é médico, outro que se chama Lucas mesmo, mas é órfão de pai e filho da empregada de uma fazenda que estudou com bolsa do governo e não gosta de falar muito da vida no campo. A questão é que acabo me esquecendo de com quem os usei e vez ou outra encontro o cidadão novamente e acabo sendo desmascarado! Outro dia - em um boteco sujo na Augusta - chega um rapaz que me conhecia da PUC, dizendo que ele e uma amiga vieram falar comigo e eu respondi "vocês não podem ser meus amigos porque eu só tomo bebidas caras". Na hora comecei a rir e lembrei que havia mesmo esse personagem que era um escroto, mas tão escroto que eu escrevia sobre ele e jogava fora. Foi então que eu respondi: "Sabe como é, né? O mundo dá voltas e eu estou aqui bebendo essa cerveja vagabunda com amigos tão baratos quanto. Ah! Eu nunca fui tão caro assim!"

Outra questão recorrente que me fazem é se escrevo coisas que acontecem comigo. Claro que uma coisa ou outra pode ser minha, mas é óbvio que não! Eu jamais abandonaria filho para viver na estrada, não mataria prostituta por solidão, não transaria por obrigação, não seria ingrato com quem me estende a mão em momentos de necessidade e tantos outros casos aqui inventados. Por outro lado, tem as festas de casamentos que eu praticamente destruí com meus porres homéricos e bunda de fora e o aniversário infantil que qualquer dia eu conto. O fato é que alguns personagens possuem vida própria na minha cabeça. Adelaide da boleia, Maria Elvira da Lapa, a viúva das "mangas" e o velho assassino foram fantasmas que me tiraram o sono enquanto não sentei e contei seus casos. Todos permanecem vivos em minha cabeça! Isso é um pouco perturbador e psicótico, mas é assim que funciona, ou seja, enquanto não dou voz a eles, não consigo viver o meu silêncio. Para mim escrever é um hábito noturno como todos os outros que me dão prazer na vida e ele acontece sorrateiro, chegando sem avisar. Por isso mesmo fico apavorado quando me pedem, encomendam algo! Não quero, não sei e não irei aprender a fazer assim! Continuarei em minha teia repleta de delírios e fantasias - nocivas ou não. Quando puder publicar sem grandes melindres e reverberações desnecessárias eu publico porque no final das contas fazemos isso por nós mesmos, para nos salvar. É preciso deixar vestígio e foi sempre assim.

"Escrever é, simplesmente, uma maneira de falar sem que nos interrompam." (Sofocleto)

quarta-feira, junho 13, 2012

Bolero Derradeiro



Olavo era velho! Decadente, meio corcunda, alcoólatra e vivia de renda. Tinha dois filhos que não ligavam e nem o visitavam nos longos trezentos e sessenta e cinco dias do ano. Na verdade ele só se deu conta de que não era importante para ninguém porque ao completar oitenta anos não recebera nenhum telefonema seja de familiares, colegas da repartição pública, de onde conseguiu ser exonerado por justa causa, ou mesmo dos poucos companheiros de copos e noitadas que acumulou nos últimos vinte nove mil e duzentos dias. Sim, ele fez a conta! Aliás, chocou-se quando percebeu que apesar de tudo o destino não lhe dera a demência ou alguma outra doença comum aos que passam a vida desafiando a saúde.

Pensou em ligar para os filhos, algum amigo, sobrinho, mas sabiamente chegou à conclusão de que não deveria. Então decidiu pegar o jornal e contratar alguma vagabunda daquelas que sempre o encantaram.

Sim, uma puta! Foi com e para elas que eu vivi! Preciso de uma puta nem que seja para conversar, beber um gim, dançar, mostrar que estou vivo!

Abriu o jornal e entre tantas resolveu ligar para Manu, a "estudante de fisioterapia".

Manu: Alô!
Olavo: Alô! Você é a moça do anúncio?
Manu: Sou. Você quem é?
Olavo: Quero contratar seus serviços! Não precisa da tal massagem, apenas esteja vestida de forma elegante, mas nem tanto. Gosto de mulheres vulgares!
Manu: Você vai me desculpar a pergunta, mas... o senhor já é de idade, não é?
Olavo: Algum problema nisso?
Manu: Não! Até prefiro... gosto de homens mais velhos porque são gentis.
Olavo: Ótimo! Pode ser hoje para o jantar?
Manu: Hoje? Pode, sim! Onde será?
Olavo: Gigetto! Rua Avanhandava 63 às 19:00 h e sem atraso.
Manu: Combinado! Estarei com um vestido vermelho.
Olavo: Não! Quero que se vista de branco e que tenha um decote displicente, cabelos soltos.
Manu: Branco?! Está bem! Vou ver alguma coisa aqui.
Olavo: Já tenho uma reserva lá! Basta pedir para ser levada até a mesa de Olavo Ribeiro.

Na hora marcada, no Giggeto, surge a moça em um vestido justo que contornava um corpo enxuto e moreno. Olavo a observa e gosta do que vê, sentindo pulsar um sangue que - por alguns instantes - o fazia esquecer-se da idade. Ela se senta, olha para ele com ar sedutor e diz:

Manu: Engraçado! Você é mais velho do que eu pensava. Acho que nunca peguei um cliente assim...
Olavo (interrompendo a moça): Assim como? Com idade para ser seu avô?
Manu: Não foi isso o que quis dizer! Me desculpe! Mesmo! Mas...
Olavo (interrompendo novamente): Mas é isso, não é? Não precisa ficar envergonhada ou achando que me ofendeu. Na minha idade é assim mesmo! Quem não me conhece me olha como um avô terno e quem me conhece como um velho safado.
Manu(achando graça): Na verdade você pode ser os três, não? Terno, avô e safado!
Olavo (esboçando um sorriso): É... podemos ser o que quisermos, não é mesmo?
Manu: Você me parece ser legal!
Olavo: Obrigado, muito obrigado!

Jantam, conversam, bebem um vinho e então vão embora. Manu não costuma atender à domicílio, apenas em hotéis, mas confiante resolveu ir até a casa do velho, pensando que seria tudo rápido e que - talvez - pudesse haver até alguma coisa de valor que ela pegaria e ele jamais teria coragem de reclamar. Ao chegarem no apartamento na Bela Cintra com a Alameda Jaú Olavo sente o olhar um pouco deslumbrado e pede que ela se sente. Vai até a vitrola, tira um disco de boleros, coloca e deixa rolar, serve um scotch para ambos, dão alguns goles e começam a dançar.

Olavo: Gosto do seu perfume! Cheiro de coisa cara sem muito critério na escolha.
Manu: Você está dizendo que gosta, mas é ruim?
Olavo: Disse que gosto e se gosto é porque é bom. Mania boba que os jovens tem de querer estar impecável! Eu já fui assim e já fui bonito, bom partido e agradável.
Manu: Sei! Eu não tenho muito como dialogar sobre isso, mas gostei mesmo de você, do trato, de tudo...
Olavo: Você lembra minha esposa, mas é mais quente, menos idiota, se mexe melhor...
Manu (rindo): Você é mesmo terrível para um avô terno, não?
Olavo (interrompendo a dança): Vá até o quarto, levante o vestido na altura do umbigo, deixe o sexo à mostra que eu já vou.
Manu: Pode deixar! Estarei pronta!

Ela vai até o quarto e começa a se preparar. Olavo passa no banheiro antes, pega o que precisa, se olha no espelho e pensa na grande noite que está para realizar. Ao entrar no quarto, vai em direção ao sexo completamente exposto da jovem, fecha os olhos, cheira, pede que ela pulse, olha, fica maravilhado e enfim começa a lamber primeiro de canto e lento, depois forte e invasivo. Manu perplexa com o grau de prazer que sente fica extasiada e pensa em como o subestimou. Da sala ouve-se Perfídia e o velho coloca um ou outro dedo dentro dela que continua a sentir um prazer incomum. Com a outra mão ele puxa um objeto que estava embaixo da cama e em um golpe brutal e certeiro rasga a barriga dela. O sangue jorra, ela grita desesperada por um ou dois minutos até morrer dolorosamente. Olavo em pé e com a boca suja de fluídos e sangue, pega a mesma faca e vai em direção certeira até o próprio pescoço. Enquanto se esvai, pensa: Eu sempre amei as putas! Com elas vivi, com elas morro! Da vitrola toca Sabor a mi!

quarta-feira, maio 02, 2012

Louca Me Chamam!


Ambiente de luzes, bebidas e conversas animadas. No canto escuro da sala está ela – pele alva, cabelos negros e lisos, olhos azuis, boca vermelha e aquele ar de quem está procurando algo. Na sexta-feira ela sempre se veste com cores vibrantes e cortes insinuantes. Naquele dia seu vestido de seda cara alcançava até o meio da coxa, bem acinturado, turquesa com um decote em “v” sem manga acompanhado de um sapato preto com salto bem alto. Na verdade nem estava tão quente, mas ela não admite passar a noite escondida em panos e, como costuma dizer, já que é para se esconder que seja com um cigarro e um bem servido “Apple Martini” pago por um cavalheiro ou dama bem disposto.


A noite prometia e não seria ela que ficaria a ver navios. Ah! Seu nome? Deborah. Aliás, convenhamos, nome que vai explodindo em sílabas e termina bem aberto em “ah”. Logo olha para a porta e vê um moço entrando todo seguro de si, meio folgado, oportunista e pensa que talvez já tenha encontrado o seu grande amor de uma noite só. Passa a fitá-lo descaradamente até que, impaciente, resolve ir até seu encontro e ver o que consegue com seu charme de dama impura. O rapaz está sentado do outro lado do bar conversando com o bartender.


Ela (sorrindo maliciosamente): Olá! Posso me sentar ao seu lado?


Ele (com seu tom canalha e irresistível): Claro.


Ela: Bem, serei direta porque não sou moça de rodeios. Está esperando alguém?


Ele: Olha só! Acho que estou diante de uma devoradora...


Ela (rindo e mexendo seu drinque com o dedo indicador): Será? Cabe ao homem ser presa ou predador, devo alertar.


Ele: Na verdade estou, mas acho que tenho uns trinta minutos ainda...


Deborah olha fixamente para ele com seus olhos desconcertantemente azuis e, sem dizer nada, dirige-se ao banheiro. Antes de entrar, vira-se e olha mais uma vez. O rapaz, tão acostumado a moças passivas e inebriadas com seu tom de macho pegador, sente um frio na espinha e entende que naquela situação não pode simplesmente recusar. Olha dos dois lados e com a naturalidade possível vai atrás da mulher que o abordou de forma tão incisiva. Ao chegar, ela abre o reservado, puxa o rapaz, tranca e sem que ele tivesse alguma chance de domínio, dispara:


Ela (levantando o vestido e abaixando a calcinha): Vai! Prove agora.


Ele, sem nem pensar na hipótese de desobedecer, abaixa-se e começa lambendo e mordiscando a coxa esquerda, depois a direita, enquanto ela vai se mexendo com tamanha facilidade em tão apertado espaço que passa a impressão de que já está acostumada com esse tipo de situação. Ao chegar no destino ela pede para ser bulinada com os dedos. Ele obedece. Deborah se movimenta tanto em sua mão que num dado momento seu sexo fica úmido e ela mais uma vez dá uma ordem que deve ser atendida:


Ela: Chupa! Vai! Enfia essa língua em mim.


Ele (atônito): Delícia! Adoro uma putinha.


Deborah olha para baixo e atônita de ódio puxa o rapaz pelos cabelos, levanta-o surpreso com os lábios molhados e sem dizer uma palavra arruma-se rapidamente, abre o reservado, sai, o deixa ali dentro, vai até a pia, retoca o batom, lava as mãos, volta para o bar e pede um novo drinque. Quando vê que não tem mais ninguém ele sai e volta para o bar. Senta-se onde estava, fuzila a mulher que o abordou com o olhar, pede a conta e fica do lado de fora esperando uma moça de família que chega uns quinze minutos depois.


Enquanto isso Deborah começa a olhar em volta para ver outro ou outra que termine o serviço começado. Na verdade ela nem se ofendeu com o anterior, mas não queria começar e terminar com o mesmo. Por acaso, naquela sexta-feira, encerrou a noite com outra mulher que, inteiramente sedenta de seu domínio, fez com que ela se sentisse a mais realizada das fêmeas do Baixo Augusta. Ao se despedirem com um longo e escandaloso beijo na porta do Eclético’s a “presa” perguntou:


Ela: Você é sempre tão decidida?


Deborah: Uma mulher precisa estar sempre pronta, não?


P.s: Esse conto foi escrito em 2010 e me inspirei na canção "Crazy He Calls Me", interpretada magistralmente pela Billie Holiday.

sexta-feira, março 02, 2012

No Escuro...


Ontem conversando com um amigo de trabalho com raiva do convite que recebeu de uma ex que, embora ele diga que não representa nada, estou certo de que ainda ocupa grande espaço no coração amargurado do rapaz, pensei em como algumas escolhas a princípio banais podem mudar totalmente a vida da gente.

Antes vou explicar a situação por cima: ele tinha um namoro de quatro anos com a moça que conhecera ainda nos tempos de faculdade e no momento em que a monogamia tornou-se enfadonha, passaram a frequentar as tão popularizadas casas de swing. Aliás, se tem um hábito que podemos citar como fruto da última década no Brasil é isso. Como existe gente indo a lugares desse tipo e – ao contrário do que alguns pensam – pessoas jovens, bonitas, sedutoras! Claro que o sexo em grupo sempre existiu, mas essa parada dos lugares comerciais, com CNPJ e tudo dedicados à putaria me parece uma retomada das casas de banho da antiguidade clássica que o cristianismo sepultou por muitos anos. Bem, eu sinceramente acho bacana e interessante ver que os casais podem ter uma vida mais honesta, solta e dialogar acerca de suas fantasias porque acho meio decadente viver os tempos de hoje com o olhar no retrovisor, mirando-se em arquétipos tolos e que fogem completamente à natureza real e particular de cada um. Também me alegra pensar que alguém possa perfeitamente sair de um bacanal às 23:30 h, chegar em casa, dormir e levar o filho para a escola às 06:30 h, sendo zeloso e responsável em seu dia a dia.

Agora, voltando ao caso, ocorreu que depois de um tempo nessa vida de hedonismo helênico/romano, a garota decidiu que não o queria mais como namorado e que estava gostando de outra garota. Adivinha onde ela “descobriu” que gostava de amiguinhas? Bingo! Você acertou! Terminado o romance ele ficou desnorteado e com ódio do mundo, das surubas, dela, dele mesmo. Enfim, aquele ódio que sentimos quando entramos com o traseiro e o outro com o pé!

Passado algum tempo, essa semana a menina liga e o convida para jantar. Ele emputecido a trata de forma deselegante e me chama para fumar um cigarro. Convite aceito, ele com o cigarro e eu com a coca-cola:

Ele: Você acredita que aquela desgraçada me liga para me chamar pra jantar?
Eu: É...
Ele: Cara, que absurdo!
Eu: Mas... você perguntou a ela o porquê do convite?
Ele: NÃO! Não vou, não quero saber! Quero que ela morra!
Eu: Quer mesmo?
Ele (me interrompendo): Quero! Desgraçada!
Eu: Bem, me deixa falar o que eu acho?
Ele: Tá!
Eu: Fulano, é óbvio que você quer ir a esse encontro! Acho até que deve!

Ele tenta me interromper, mas eu sou enfático e corto.

Eu: Não! Me deixa terminar! Cara, você quer muito falar com ela. Se não quisesse não ficaria transtornado assim. Penso que deve isso tanto a você quanto a ela. Cara, essa moça passou 4 anos dando a xoxota pra você. Isso é muita coisa!
Ele: Lucas, essa vadia me traiu!
Eu: Como assim?! Deixa de ser lunático! Meu, vocês iam a casas de orgias!
Ele: Você não entende!
Eu (agora bravo): Entendo sim! Não venha subestimar minha capacidade de sacar o motivo verdadeiro da sua raiva! Cara, enquanto ela ia nesses lugares para satisfazer, entre outras coisas, sua vontade de trepar com outras garotas, de vê-la fazendo o mesmo e de ter a fantasia masculina de duas mulheres a seu serviço, estava tudo bem. Foi só ela se investigar melhor e sacar que podia e queria ter uma relação sólida com outra garota que aí ela virou uma biscate perversa.
Ele: E como você pode dizer que é isso?
Eu: Desculpe, mas o que você está sentindo é dor de corno e isso precisa passar. Há que se aceitar a ideia de que hoje todos somos passíveis de troca pelos dois gêneros. Qual a diferença entre ser trocado por outro cara ou por uma mina?
Ele: Agora eu sou o vilão então? O filho da puta sou eu!
Eu (um pouco sarcástico): Na boa, não tem filho da puta nesse caso...
Ele: Lucas, ela devia ter sido honesta comigo!
Eu: Ela foi! Tanto foi que deixou a vida tranquila de uma relação socialmente aceita para ser tachada de sapatão por aí e, talvez, ela nem seja gay, mas bissexual, o que a torna – aos olhos medíocres – ainda mais vadia.
Ele: E por que você acha que eu devia falar com ela?
Eu: Não sei. Quem deve saber é você! Não sou protagonista da sua história, apenas ouço suas lamúrias. Aliás, como já disse, decadentes! Até entendo que sua dor é real, mas nem por isso deixa de ser piegas e cafona, saca?
Ele: Nem sei porque te conto isso! Dos meus amigos você é o mais cruel...
Eu: É, eu sei disso! Por trás dessa carinha de moço bom do interior, esconde-se um pequeno monstro cultivado com esmero. Sempre foi assim, sempre será!
Ele (agora rindo): Filho da puta!
Eu: Pode parar! Mamãe nunca se meteu nessas festas selvagens que você frequenta...

Rimos os dois!

Não, é claro que ele não sabe que eu postei esse texto. Quanto aos curiosos, caso ele vá jantar com a menina, escrevo depois porque é óbvio que o pássaro ferido quer terminar de contar esse caso ao cruel aqui. Falar é – muitas vezes – a melhor forma de reconstruir nossas asas para voos maiores e até mais excitantes.

sexta-feira, janeiro 13, 2012

Fogo Amigo


Conversas paralelas são sempre perigosas quando temos ouvidos disponíveis e, via de regra, o que não falta é fogo amigo em qualquer setor de nossa vida pública e privada, mas ao contrário do que pensava até bem pouco tempo, muitas vezes damos a chance para que o outro venha nos envenenar e isso nos torna mais répteis do que a serpente que nos pica, pois nós é que abrimos a porta e chamamos o ser peçonhento.

Eu sempre tive uma dificuldade enorme na luta entre a minha curiosidade e noção de perigo. Por isso vez ou outra acabo ouvindo quem não devia e sendo alvo fácil de minha burrice e fraqueza de caráter. Aliás, duas das minhas características mais evidentes são o fascínio e pavor que o perigo me causa e certa permissividade em nome do prazer ou de qualquer outra coisa que lembre ou pareça com ele. Acho que isso fica tão claro em mim que acabo me deixando levar por pessoas e enredos que eram claramente uma arapuca. Sabe aquela coisa de ir até a beira do abismo para produzir o calafrio de estar vivo e sentindo algo?

O fato é que o chamado fogo amigo é mais uma característica do ser humano e mesmo as almas mais cândidas - se é que isso existe mesmo – acendem tochas dele em algum momento. Algum, não! Em muitos momentos! Tenho cá pra mim que as motivações mais recorrentes são sexo e dinheiro e que isso se dá porque somos desnorteados e não aguentamos conviver com a nossa total insignificância, ou seja, passamos a vida tentando produzir vestígios através de atitudes ruins e boas. Como definir algo tão limítrofe quanto o bem e o mal? Parece estranho, mas acredito que o nosso melhor e o nosso pior caminham de mãos dadas nessa busca incessante e inglória de ser alguma coisa que nem previamente concebemos com clareza. Como o dinheiro gera notoriedade, poder e um certo charme enquanto o sexo nos leva ao óbvio delírio do gozo, é por eles que lutamos, amamos, traímos e até ironicamente morremos. Se não me engano tem até um filme antigo em preto e branco chamado “De Amor Também se Morre”.

Óbvio que você – um dos cinco “à toa” que pararam para ler essas mal redigidas linhas irá se perguntar o porquê de eu estar pensando nisso. Lendo há pouco um trecho do “Evangelho de Judas” em que se afirma que Jesus teria lhe dito: “Você irá sacrificar o corpo do homem que eu encarno”, pensei que se isso aconteceu mesmo, Judas foi alvo de calúnia ou no mínimo de mal julgamento por parte de seus companheiros e que – talvez – tenha sido o mais fiel dos apóstolos, pois teve a coragem e a falta de vaidade de entrar para a história como o traidor, o conspirador, o fogo amigo do salvador sacralizado ao longo de todos esses anos. Quem há de elucidar um questionamento desses? Judas pode ter sido quase tão importante e sofredor quanto Maria, pois a ela coube a tarefa de dar à luz o tão amado mito do cristianismo e a ele coube o indigesto papel de produzir a morte agonizante do mesmo. Porém, se não tivesse Cristo sofrido o que sofreu exatamente da forma como tudo ocorrera, ele representaria papel tão importante no tempo e nos corações de seus seguidores? Teríamos hoje uma cultura, uma civilização cristã? Coloco essa indagação a partir da suposição de que os fatos elencados acima são reais e é claro que qualquer um pode simplesmente dizer: Judas era traidor e seu evangelho uma farsa! Claro que pode! Afinal, se Judas era mesmo um homem de caráter dúbio, ele pode ter inventado essa fala na tentativa de limpar a própria barra de sua túnica coberta do sangue mais puro e sagrado de que já se teve notícia.

Agora pensem comigo: Judas – o amigo próximo - teria traído o que havia de mais sagrado pelo valor de trinta dinheiros! Ah! O vil e desprezível dinheiro sempre maculando corações em nome do profano gozo da vida material. Aquele que ornamenta e enche de beleza, gerando notoriedade e, por fim, sexo. Sim, se Judas era o homem desprezível que dizem que ele era, certamente gastou o ressarcimento de sua delação com mulheres, homens ou os dois gêneros humanos, uma vez que não sabemos qual era a dele na hora de se fartar em regozijos carnais e mais toda sorte de artifícios parar gerar prazer porque é claro que ao produzir o hediondo ato em troca de grana, o cara queria mesmo era boa vida e já estava cansado de peregrinar por aí junto a Cristo e seus discípulos por desertos, vilas, cidades, entre tantos lugares fartos de pobreza e necessidades básicas. Ele queria mesmo era um pano legal, uma casa grande e todos os confortos que havia na época.

Por isso toda vez que me vejo como vítima de fogo amigo indago até que ponto eu quis ser vítima, sanar uma curiosidade inútil e no grau de Judas que há em quem carregava a tocha porque muitas vezes eu e o outro nem fazemos por mal, mas por mal hábito. Talvez por tudo isso Judas seja – para mim – o personagem mais instigante e humanizado dessa trama que tem pautado invariavelmente nossas vidas nos últimos dois mil e onze anos. Foi ele que criou um Cristo eternamente na cruz e o deixou pregado, servindo de modelo às outras que não cansam de nos mostrar. Pense em quantas vezes pregamos e somos pregados e em como isso é natural. Por mais perverso que soe, estamos muito mais próximos das impurezas do que entendemos como bom e sagrado e isso acaba nos constrangendo e excitando também.

quarta-feira, novembro 24, 2010

O Nefasto!


Eu acho que todo mundo já se deparou com o canalha, não? Bem, eu não falo do canalha sedutor e comedor que povoa o imaginário coletivo, mas daquele nocivo, invejoso e destruidor. Sabe aquela pessoa que se aproxima de você, torna-se amiga e só te atrapalha? Nossa, eu não sei se são os trinta anos que bate à porta, o retorno de Saturno ou seja lá o que for, mas como eu tenho me deparado com essa qualidade de gente!

Existem vários subtipos de canalhas, mas eu me atenho a dois que são os frequentes: o burro e mais usual devido ao crescimento em escala geométrica da ignorância e falta de tato e o extremamente perigoso e ardiloso que eu chamo de “o canalha da boa sociedade”.

O primeiro tipo é fácil de perceber e acho que na verdade ele só é canalha por total falta de competência em desempenhar um papel melhor na vida. Geralmente ataca em bando e costuma ter como alvo os que fazem tudo aquilo que ele gostaria de ser e/ou fazer, mas lhe falta peito. Costuma usar o artifício da anedota corrosiva que os elementos mais desagradáveis adoram em suas rodinhas cheias de gente infelizes que estão rindo à toa e freneticamente. Quase sempre ele tem o emprego que não quer, o parceiro que não deseja, a casa que não gosta e até mesmo a cidade que não habita. É o frustrado tão comum nos dias de hoje que, quando a luz está apagada, é capaz das maiores e mais impublicáveis baixarias. Não configura um perigo, digamos assim, real. Aliás, pode ser até divertido odiá-lo de lado.

Já o segundo tipo é aquele que se faz envolvente, sedutor, é inteligente, muito agradável e, por isso tudo, você demora muito tempo para reconhecer, mas, quando isso acontece, ele fica tão desnudo diante da sua inesperada perspicácia que mal pode encará-lo e desaparece como em um passe de mágica, fazendo novas vítimas em outra freguesia. Como eu sempre gostei de um bom embate e não sou o que podemos chamar de uma vítima usual, costumo deixá-lo por perto e, sem que ele possa ter completa certeza de que foi de fato revelado, passo a tratá-lo bem com nuances de agressividade pouco nítida. Para tal, é preciso ter sangue frio, um certo ar aristocrático (para não escrachar) e muita, mas muita mágoa mesmo do elemento. Aliás, esse é um ponto importante porque a vingança não pode ser ad eternum senão faz mal, ou seja, chega aquele momento que ou você corta de vez, chamando para uma cerveja e antes de partir diz olhando nos olhos que ele é repugnante (claro que não precisa fazer essa cena toda, pois existem maneiras de deixar isso claro sem esboçar um músculo facial sequer) ou então vai cozinhando em fogo baixo até que o mesmo evapore de vez.

Eu me deparei com um tipo assim logo que entrei na PUC aqui em São Paulo em dois mil e quatro. Estava sentado em um canto conversando animadamente em uma roda quando esse ser humano que chamarei aqui de vômito apareceu e tentou me ridicularizar da maneira mais covarde, vil e desnecessária que possa haver. Como fui criado em um colégio de freiras onde a crueldade e o cinismo eram as moedas correntes entre a elite inculta de um interior decadente, coloquei o vômito no bolso e me saí – como quase sempre nessas situações – muito bem e esse foi o meu pecado, isto é, não ter expurgado logo o mal por achar que sou inteligente o suficiente para lidar com o canalha destruidor. Porém, por termos até hoje amigos em comum, transitando nas mesmas rodas, acabei levando muito tempo o vômito na maciota e em dado momento de distração ele me sujou com seu caráter maquiavélico e nojento. Nessas horas eu, e imagino que você que está me lendo, penso sempre o porquê de não ter acreditado e confiado na primeira impressão que tive do indivíduo, visto que todos nós nascemos para aquilo que somos e com o canalha não é diferente! Sempre me bate aquela sensação de credulidade infantil, sabe?

Bem, esse texto nem é para ser lido por todos, mas apenas pelo vômito que eu tenho certeza que sabe que é para ele. Afinal, o covarde tem plena consciência do quão ácidas e destrutivas podem ser suas atitudes e, não posso deixar de esclarecer, que o vômito é belo, cativante, muito inteligente, sabe trocar de pele como a mais peçonhenta das serpentes e até hoje quando me encontra fica em dúvida se eu o compreendi. Pessoa nefasta, eu exercito desde cedo a arte de domar répteis e saiba que eu posso reverenciá-lo com um sorriso nos lábios e uma faca mãos. Até o próximo e cínico encontro!

quarta-feira, agosto 18, 2010

A Beleza da Manga


Renato era um belo e jovem rapaz que gostava de Clarice, uma moça que não costumava despertar olhares de ninguém devido ao seu temperamento difícil aliado a sua quase inexistente beleza física. Todos se perguntavam a mesma coisa: Como um moço tão belo pode gostar de uma mulher tão feia, desagradável e de hábitos deselegantes?

Enquanto ele praticava e ganhava todas as modalidades esportivas, ia bem na escola, chamando a atenção e cativando sempre com um sorriso no rosto, o contrário acontecia com Clarice. Porém, nada parecia abalar o romance deles - nem as investidas constantes de belas e despeitadas jovens e tampouco as piadas maldosas dos amigos do clube, do colégio e do bairro. Renato seguia absolutamente apaixonado e Clarice continuava constantemente desagradável e insatisfeita.

Tempos depois Renato estava no altar a esperar a noiva com seu terno elegante, porte de Príncipe, sorriso reluzente e muito alegre. Clarice entra pela Igreja com o mais belo vestido e mesmo assim ainda com aquele ar desagradável e a mesma falta de atrativos. A mãe do noivo cochicha no ouvido do filho que vai entender se ele desistir de tudo ali mesmo, mas com convicção absoluta o rapaz nem pensa nisso. Casam-se, festejam e seguem para a lua de mel.

Passam anos, Renato prospera na vida e fica muito rico. Clarice resolve ficar bonita e começa a fazer algumas intervenções que a deixam mais simpática. O problema é que enquanto a esposa vai se embelezando, o marido fica careca, gordo, diabético e acaba morrendo. Eis que no dia de sua viuvez, Clarice surge bela com nariz afilado por cirurgia plástica, esbelta e proporcional devido à lipos e academias, cabelos sedosos e dois filhos muito bonitos tal como o pai quando novo e que agora se encontra em um caixão para obesos. Porém, as surpresas não terminam por aí porque a viúva sofre com elegância e muita discrição, inclusive consolando os mais tristes e em nada lembrava a jovem feia e desagradável do passado.

No momento de enterrar o defunto ouve-se uma mulher gritar ao fundo que também tem direito ao morto, pois foi sua amante por mais de dez anos. Todos olham e veem uma lindíssima jovem com seus trinta e poucos anos ajoelhada aos prantos. Clarice pede licença, vai até a moça, ajuda a se levantar, leva até a lápide e pergunta se ela teve filho com Renato. Ela nega e a viúva oficial responde para que todos ouçam: Quero que respeitem a dor desta Senhora! Não era fácil para mulher alguma nesse mundo aturar o mau hálito e o sexo de tão pouca qualidade que ele tinha para oferecer. Volta-se novamente para a agora atônita amante e pergunta: Ao menos ele lhe dava boa vida?

A bela jovem abraça a viúva e chorando copiosamente enterra o rosto em seu colo. Clarice olha para o túmulo e pensa no quão poderia ter sido mais feliz se tivesse casado com um homem menos proeminente, mas que a satisfizesse na cama. Ao chegar em casa não quer saber de outra coisa além da manga que havia escondido no fundo da geladeira para que seu marido guloso não comesse.

quarta-feira, março 25, 2009

Descarados!




Olá Pessoal!

Antes de qualquer coisa gostaria de deixar muito claro que em nenhum momento sou contra as mulheres comprometidas que levam para intimidade de suas relações heterossexuais outras mulheres porque vejo com muita naturalidade o bissexualismo e ao contrário de muita gente acredito que ele existe e está se perpetuando cada dia mais devido à nossa cultura ao mesmo tempo homofóbica e homoerótica. Porém o que vem me chamando muita atenção nos últimos tempos é o fato de que o lesbianismo, que sempre foi uma fantasia do universo heterossexual masculino, passou a ser muito incentivado e até mesmo cobrado como um direito dos homens.

Outro dia estava conversando com um amigo sobre um grupo específico.

Ele: Essas garotas são todas muito reprimidas! Elas acham um absurdo transar com uma mulher e comigo ao mesmo tempo.
Eu: E você, acharia um absurdo se uma delas – a mais gostosa – pedisse que você a dividisse com outro rapaz? Mas dividir mesmo! Beijar a três, por exemplo, e isso sendo só o início?
Ele: Claro! Isso seria um absurdo! Eu não sou gay.
Eu: E por que ela deve ser lésbica pra você?
Ele: Ah! Mas é diferente porque eu estaria ali para as duas.
Eu: Isso é um completo absurdo! Se ela pra ser contemporânea e libertária deve transar com outra mulher junto a você, você não pode achar um absurdo se algum dia ela pedir que você aceite um terceiro elemento masculino na relação de vocês.
Ele: Eu não sou veado, não sou!

Bem, o resto da conversa seria impróprio e nada ilustrativo. O que me fez escrever foi esse tipo de pensamento que, acreditem, está cristalizado na cabeça de vários homens por aí e isso encontra incentivos em todos os produtos de entretenimento dos mais diferentes veículos. Se você for assistir um filme pornográfico todos eles, sem exceção, são pensados para satisfazer os homens mesmo nas cenas de lesbianismo e digo isso porque já perguntei pra várias lésbicas se elas se excitam vendo e todas são categóricas na negativa porque não tem nada nem próximo do que seria uma relação mulher com mulher. Porém há agora o “The L Word” que passa na Warner e todas dizem que pela primeira vez viram algo erótico e lésbico. Eu também já assisti e mesmo ciente de que embora seja glamourizado demais (trata-se de um grupo de lésbicas lindíssimas, chiques e muito sedutoras que moram em casas com piscina estilo quadro do Edward Hopper em Los Angeles) e achei que mesmo sendo pensado pra agradar o universo lésbico chique (já que passa em canal pago) ainda assim é projetado pra fisgar também o universo masculino. Porém o ponto positivo é que elas se pegam mesmo e não ficam naquelas ceninhas de beijo no escuro e “apague a luz e deixe entendido que vamos transar”.

Outra ponto que te me chamado a atenção são os seriados juvenis. Em todos eles existem casais gays – femininos ou masculinos – mas quando o casal é de lésbicas há sempre beijos quentes e cenas de cama, já quando são masculinos as cenas são sempre mais tranqüilas e ficam no subentendido, ou seja, mais uma vez o foco do erotismo é o homem e isso é, para mim, muito estranho porque sempre achei que o erótico fosse algo mais feminino e que a pornografia fosse mais masculina, mas pensando bem o mundo é dos homens heterossexuais que criaram os pilares de nossa sociedade cristã ocidental e nesse universo as mulheres devem servir, os gays devem se esconder e os homens “machos” devem se servir e se dar o direito ao deleite. Por isso, meninas, quando algum menino pedir que você leve ou aceite alguma mocinha na sua cama, só o façam se isso te excitar e deixe claro que só aceitou porque você quis. Caso contrário continuaremos a ter mulheres exploradas de todas as maneiras, inclusive e principalmente sexualmente.
Lutem pelo direito de não serem prostitutas! E claro: pelo de poderem ser, se assim quiserem.

Abraços do Lucas, o mais Franco.

terça-feira, março 17, 2009

Tragédia Brasileira - Manuel Bandeira.


"Não lhe pedi uma vida decente"



Olá pessoal!

Eu adoro esse conto do Bandeira e por isso imaginei em cima e escrevi uma "novela de rádio". Espero que gostem do roteiro e tirei as indicações de efeitos sonoros que devem estar no roteiro pra leitura fluir melhor.

Misael, funcionário da Fazenda, com sessenta e três anos de idade, conheceu Maria Elvira na Lapa, - prostituída, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria. Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura... Dava tudo quanto ela queria.

Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado. Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de casa. Viveram três anos assim.

Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa. Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos...

Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.


Locutor 1 – NARRADOR
MISAEL, FUNCIONÁRIO DA FAZENDA, COM SESSENTA E TRÊS ANOS DE IDADE CONHECEU MARIA ELVIRA NA LAPA - PROSTITUTA, COM SÍFILES, DERMATITE NOS DEDOS, UMA ALIANÇA EMPENHADA E OS DENTES EM PETIÇÃO DE MISÉRIA.MISAEL TIROU MARIA ELVIRA DA VIDA, INSTALOU-A NUM SOBRADO NO ESTÁCIO, PAGOU MÉDICO, DENTISTA, MANICURA... DAVA TUDO QUANTO ELA QUERIA E QUANDO MARIA ELVIRA SE APANHOU DE BOCA BONITA, ARRANJOU LOGO UM NAMORADO.
MISAEL NÃO QUERIA ESCÂNDALO. PODIA DAR UMA SURRA, UM TIRO, UMA FACADA. NÃO FEZ NADA DISSO! MUDOU DE CASA E VIVERAM TRÊS ANOS ASSIM.
TODA VEZ QUE MARIA ELVIRA ARRANJAVA NAMORADO, MISAEL MUDAVA DE CASA.

Locutor 2 - MISAEL
[calmo]JÁ ARRUMOU AS COISAS, ELVIRA?O CARRETO PARA PRAÇA MAUÁ SAI DAQUI A POUCO. AMANHÃ JÁ ESTAREMOS NA CASA NOVA E ESPERO QUE VOCÊ HAJA TAMBÉM COM UMA NOVA COMPOSTURA ...

Locutor 3 – MARIA ELVIRA
[firme] NUNCA TE ENGANEI! [displicente] TU NÃO TENS O DIREITO DE ME EXIGIR ESSE TIPO DE COISA PORQUE EU TAMBÉM NÃO LHE COBRO NADA.

Locutor 2 - MISAEL
[bravo] CLARO QUE NÃO COBRAS! DEI-LHE DE TUDO: NOME, DIGNIDADE E RESPEITO PÚBLICO. MAS VOCÊ, ELVIRA, COMPORTA-SE COMO UMA, UMA...

Locutor 3 – MARIA ELVIRA
[debochada] VAGABUNDA, MERETRIZ, PROSTITUTA? SEI QUE É ISSO O QUE PENSASTE EM DIZER. POR QUÊ NÃO FALA? NÃO É HOMEM PARA ISSO? NÃO AGUENTA ASSUMIR QUE SE CASOU COM UMA PISTOLEIRA. PORQUE É ISSO O QUE EU SOU.

Locutor 2 - MISAEL
[inconformado] NÃÃÃÃO. FOSTE! AGORA ES MINHA SENHORA, MAS NÃO SE PORTA COMO TAL. PREFERE ACHINCALHAR A MIM E A SI MESMA A LEVAR UMA VIDA DECENTE.

Locutor 3 – MARIA ELVIRA
[displicente] NÃO LHE PEDI UMA VIDA DECENTE!

Locutor 2 - MISAEL
[imperativo] CALA BOCA! CHEGA! NÃO QUERO DISCUSSÕES.

Locutor 3 – MARIA ELVIRA
ESSE É O SEU PROBLEMA! NUNCA QUER DISCUTIR NADA E ESTÁ SEMPRE FUGINDO DA VERDADE. QUER SABER? NÃO ADIANTA FICAR MUDANDO DE BAIRRO PORQUE NÃO VOU LEVAR ESSA VIDA INSOSSA QUE QUERES ME PROPORCIONAR. E TEM MAIS: PARE DE CHORAR, REAJA! [aos gritos]

Locutor 2 - MISAEL
[aos gritos] CALE-SE ! JÁ DISSE QUE NÃO AGUENTO MAIS E TU INSISTES EM CONTINUAR COM ESTE TORMENTO. NÃO VES QUE EU TE AMO?

Locutor 3 – MARIA ELVIRA
VEJO! MAS EU É QUE NÃO TE AMO E NÃO QUERES ACEITAR. PREFERES A FARSA. [indiferente]

Locutor 2 – MISAEL
[em frangalhos, desesperado] COMO NÃO ME AMAS? NUNCA ME AMASTE OU DEIXASTE DE ME AMAR? GOSTOU DE MIM ALGUM DIA OU APENAS ME USOU?

Locutor 3 – MARIA ELVIRA
[indiferente] QUERES MESMO SABER? NUCA TE AMEI ASSIM COMO NUNCA FUI UMA MULHER HONESTA. ES INCAPAZ DE SACIAR UMA MULHER NA CAMA E JÁ QUE PERGUNTASTE DEVO DIZER QUE ESTOU GRÁVIDA, MAS TU NÃO ES O PAI.

Locutor 2 - MISAEL
[pasmo] GRÁVIDA?! DE QUEM?

Locutor 3 – MARIA ELVIRA
[altiva] GRÁVIDA DO EMÍLIO, SEU IRMÃO. ELE SIM É HOMEM! VIRIL, RUDE E SABE COMO TRATAR UMA MULHER.

Locutor 2 - MISAEL
[pasmo] DO EMÍLIO?!

Locutor 3 – MARIA ELVIRA
[indiferente] SIM, DO EMÍLIO! NÃO DE UM PATSO COMO VOCÊ.

Locutor 2 - MISAEL
[descontrolado] E AGORA, O QUE PENSAS EM FAZER? TALVEZ, PENSASTE QUE EU IRIA CRIAR O BASTARDO, FILHO DE UMA CHOCADEIRA VIRA-LATA COM UM VIGARISTA DE BEIRA DE ESQUINA. TERÁS O QUE MERECE.

Locutor 3 – MARIA ELVIRA
[desesperada, fugindo] PARA COM ISSO MISAEL! NÃO SEJAS INSANO! ESTOU GRÁVIDA.

Locutor 2 - MISAEL
NÃO ADIANTA CORRER! EU LHE PEGO ONDE QUER QUE VOCE ESTEJA. PREFERES MORRER NA RUA DE ONDE SAÍSTE? NÃO ME IMPORTO, MATO-LHE AQUI MESMO!

Locutor 3 – MARIA ELVIRA
NÃO! POR FAVOR, EU IMPLORO! NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOO...

Locutor 1 - NARRADOR
POR FIM NA AVENIDA ABOLIÇAO, ONDE MISAEL, PRIVADO DE SENTIDOS E INTELIGÊNCIA, MATOU-A COM SEIS TIROS E A POLÍCIA FOI ENCONTRÁ-LA CAÍDA EM DECÚBITO DORSAL, VESTIDA DE ORGANDI AZUL.

terça-feira, março 03, 2009

Esperando Dante.

"A vida é uma peça musical onde não se permite ensaios. Por isso cante, toque, se alegre e viva intensamente cada minuto antes que o maestro encerre e o espetáculo termine sem aplausos"




Hoje eu tive um sonho, mas estava acordado e fico feliz que tenha sido assim porque os mais belos devem ser sempre conscientes. Sonhei com um menino bonito, forte, íntegro, feliz e leve. Ele já tem nome e é real. Trata-se do Dante, filho da Susaninha e do Adrián.

O Dante não será o primeiro neto ou sobrinho, mas estou certo que assim como a Cecília também trará o seu encanto e charme, uma vez que é filho de uma penapolense que fez balé obrigada, fugiu do Catecismo e nunca matou a curiosidade de experimentar a hóstia sagrada, que ao invés de vôlei preferiu “handball” e tênis, que fez penteado anos oitenta e quer morrer quando vê as fotos, que achava festa de debutante uma coisa hedionda de tão cafona, que estapeou o “galã” nipônico porque ele era engraçadinho demais, brigou com um rapaz de dois metros no recreio, pensou em ser jornalista e atriz, mas acabou tornando-se uma nobre advogada, que inventou para uma amiga que tinha uma irmã gêmea e colocou a criatura pra falar com a suposta no telefone e de um argentino de Santa Fé – que mesmo vindo de uma cidade chamada Moises Ville não sabe nem onde fica a Sinagoga mais próxima de sua casa e quando ouve, se é que já ouviu, alguém falando em hebraico, se pergunta qual língua exótica seria aquela e que, pasmem, me acha louco só porque logo no primeiro mês de casado eu cheguei em sua casa às seis horas da manhã aos prantos dizendo que ia morrer devido a uma cólica, provavelmente de rim e também porque não gosto que ele ande de mãos dadas com minha irmã e apenas sua esposa quando estamos os três juntos.


Bem, assim como aconteceu e acontece com a Cecília eu também imagino o Dante e ele é um carioquinha que corre pra Ipanema apenas nos finais de semana porque os progenitores adoram morar em Laranjeiras e querem que ele estude a semana toda e que vá ao Inglês, que é a sensação da sala porque fala “español”, que tem do pai o nariz, os cachos pretos e da mãe a testa grande e o bico quando emburra. Creio e espero com todo o afinco que ele seja um bom aluno, saiba desenhar, entenda bem as ciências exatas e mesmo assim prefira história e geografia, ganhe as Olimpíadas de verbos, tenha letra bonita, que seja muito paquerado, possua aquele arzinho blasé dos vizinhos do Cone Sul com um olhar distante e certeiro, que ele tenha fé, mas sem comprometer sua inteligência e bom senso e que seja comunicativo apenas quando for necessário. Tudo isso porque acho que não há papel melhor e mais seguro do que o tipo “gatinho ou gatinha mistério cheio de si”. Eu e você, caro e parco leitor, sabemos que isso arrasa quarteirão. Aliás, eu que sempre fui falante demais, odiava essas e esses, mas no fundo sabia que eram “style”. Acho que quando ele vier passar férias em Penápolis sua prima que será super popular vai enturmar o priminho carioca na roda mais animada e disputada do pedaço e que os meninos vão querer matar aquele “carioca-argentino-folgado” que, com grande cinismo embrulhado num pacote falso de diplomacia, sairá por cima e sem socos pensando o quão bobos são os caipiras da Noroeste, mas que também fará bons amigos e que virá com prazer sentir e causar calores nas piscinas e quadras do Clube Penapolense. Aliás, tenho a impressão sem nem saber o porquê que ele vai gostar de basquete e natação e que será feliz, mas não muito porque felicidade excessiva é coisa de gente burra e ele será extremamente inteligente.

Claro que mais uma vez estou delirando e assim como com a amaríssima Cecília, espero que da forma que ele vier o mundo abra os braços cheio de possibilidades e que sua vida seja longa e publicável. Por que publicável? Ora, porque eu adoro biografias!




Abraços do Lucas, o mais Franco.

quarta-feira, outubro 15, 2008

O grande ofício


"A luz de seu olhar me permite sonhar"

Eu pensei muito antes de começar a escrever esse texto porque sei que posso acumular alguma inimizade e até um processo judicial, mas mesmo assim resolvi postar já que não deixaria nunca uma ou outra desclassificada pautar seja lá o que for na minha vida.

Hoje, dia quinze de Outubro é o tal Dia dos Professores e eu nunca me esqueço dessa data. Nunca mesmo! Esqueço até o aniversário de amigos e familiares, mas o Dia dos Professores é sempre lembrado e acho que isso se deve ao fato de eu ter tido grandes mestras e essa grandiosidade se manifestou ora pela competência, ora pelo carinho e também pela total aptidão para ensinar. Teve também muitas picaretas que ou eram só ruins ou eram ruins e canalhas. Porém no final prevaleceram aquelas que fazem do ensino o maior ofício que alguém pode ter.

A primeira figura que me vem à cabeça quando penso em professora é a Evanice, na época secretária do Museu onde minha mãe trabalhava e que me ensinou a escrever as primeiras palavras e ela o fez com tanto afinco que até hoje nossas letras se parecem. Não sei ao certo, mas tenho uma vaga lembrança de ter sido seu primeiro aluno, assim como ela foi a minha primeira professora e ainda rimos do quão errado eu falava. Era algo como: “Evanice, abre o Muçeu pra eu pegar a pipara que está lá denturu da sala?”. Aliás, fui uma criança neurótica porque além de falar muito errado, tinha mania de banhos (tomava no mínimo três por dia), ovos (comia três só pela manhã), vitamina de banana (feita pela Dona Dercília) e sorvete com o Vô Chiquinho (ele uma vaca preta e eu um Sunday). Mas, além disso, tinha o tique do Barbosa da TV Pirata e repetia três vezes a última palavra das sentenças (minhas e dos outros). Imagina quanto constrangimento devo ter causado.

Bem, voltando ao assunto, no primário fui alfabetizado por uma Senhora incrivelmente competente e de extrema sensibilidade e toda vez que me lembro dela sinto uma felicidade e uma ternura que me remete aos incríveis dias em que passei naquela sala de aula velha do Colégio das Freiras. Seu nome é Luiza, a minha Tia Luiza que era pra mim tão importante como a minha avó, uma vez que era fantástico como ela fazia do ensinar algo poético e belo e de como sabia lidar com os mais variados tipos de alunos. Eu a amava tanto que guardo ainda hoje um livro chamado “Uma pipa tão pipa no céu” com uma dedicatória dizendo que através da escrita e da leitura eu voaria solto e leve como uma pipa. Sim, eu adorava pipas e também peões de madeira e blocos de montar.

No ano seguinte fui aluno de uma psicopata seca (ela não teve filhos, felizmente) e embora devesse por precaução pular essa parte, prefiro falar mal. Essa mulher que não citarei o nome é monstruosa, incompetente e covarde, pois batia nos alunos e as freiras e toda a escola faziam e fazem (porque ela está lá até hoje) vista grossa ao método nazistinha dela. Bem, como não sou cristão e não tenho problemas em odiar, eu a odeio e quero que esse projeto de Demônio morra dolorosa e vagarosamente nas mãos daquelas enfermeiras que batem em velinhos gagás em asilos imundos. No ano seguinte fui aluno da Tia Mariza que era disputadíssima na matrícula porque além de competente tinha uma forma mais jovial de ensinar e não dava tarefa na sexta-feira. Muitas são as boas lembranças desse ano, mas as mais vivas em minha memória foram o dia em que ela ensinou Frações com barras de chocolate (que comemos depois) e também a quadrilha da Festa Junina (a dela era sempre a mais legal e inventiva).

Depois veio o Ginásio e agora tenho que pedir desculpas para Dona Cecília, professora de Português extremamente carinhosa que foi muito mal recebida por mim porque o fato é que na quinta-série fiz amizade com um “pessoal da pesada” que estudava na oitava e já estavam pixando muro e fumando Free escondidos e eu, fedelho metido, me enturmei e comecei a achar legal ser do mal. Eu não só a tratava com rispidez como ainda fazia tudo pra criar problemas e o maior deles foi quando ela passou uma atividade em que nós deveríamos escolher uma mercadoria qualquer e criar um merchandising novo ou aproveitar de outro produto de natureza distinta. Claro que o espírito de porco aqui aprontou e escolheu uma camisinha Jontex que tinha aos montes na gaveta do Francisquinho (eu até hoje não sei se ele usava tudo mesmo ou comprava pra fazer tipo). Bem, levei a camisinha e uma garrafa de cerveja Skol vazia. Abri o preservativo depois de ler como usar e coloquei na garrafa que simulava o pênis dizendo sarcasticamente para uma sala de crianças de dez, onze anos: “Sai dessa de morrer de Aids, abre uma Jontex!” Sei que isso é engraçado, mas morro de vergonha da minha agressividade gratuita nessa época.

Outro dia encontrei essa professora no Orkut e ela me deixou o seguinte depoimento: “Lucas, quero dizer o que sempre quis, você nunca saiu da minha memória, desde o primeiro dia de aula há tantos anos...mas, mais que o primeiro dia é a memória dos demais...incrível, não me lembro de quase ninguém daquela quinta série, mas nunca me esqueci de você!
Fico muito feliz que seja assim, essa pessoa tão iluminada, tão sábia e tão sincera.
Desejo que sua vida seja cheia de bênçãos.
Carinhosamente,
de alguém que nunca te esqueceu.
Um grande beijo”

Outras professoras também foram igualmente marcantes e são elas: Dona Jeni (ela me adorava e acreditava tanto no meu futuro), Dona Cristina (a risada mais contagiante e a melhor proposta didática que eu tive), Ana Sílvia (incrível professora de Redação), Arlete (devo confessar que até hoje tenho e consulto seus tópicos sobre Literatura Portuguesa e Brasileira), Nahara (essa foi sem dúvida a mais divertida e suas aulas era sempre movimentadas), Alvair (adorava um palavrão), Dona Márcia (uh, Tiazinha!), Dona Bety (que exigia a mais perfeita margem e legenda no caderno técnico), Dona Célia com suas apostas nunca pagas, Dona Marilda (a melhor professora de Geografia disparada), Dona Angélica (me fez ficar viciado em Análise Sintática na sétima série) , Seu Jáder (tirar sete com ele era nota alta) e em especial a Madá que nem cabe comentários de tão significante que foi.

Se eu for falar de todas não termino esse texto. Os não citados ou não deixaram marcas ou foram muito ruins e digo isso porque não me dou ao ridículo de fingir que tudo foi bom. Não, não foi e teve tipos que deveriam se envergonhar de entrar numa sala de aula. Portanto hoje, parabéns a todos os bons mestres que cruzaram meu caminho e deixaram marcas inesquecíveis porque pra mim ensinar é tão sagrado quanto parir e já disse Milton Nascimento que "tudo o que move é sagrado" e eu acredito piamente que quanto mais se ensina, mais aprende o que se ensina. Minha eterna gratidão e carinho.

Abraços do Lucas, o mais Franco.

domingo, junho 29, 2008

Made in Brazil. I'm so sorry!


"Brasileiros, chegou a hora de realizar o Brasil."
(Mário de Andrade em carta a Manuel Bandeira)
Olá pessoal!
Eu vivo me perguntando o porquê de na minha geração haver tanta gente com um sentimento de negação pela cultura popular brasileira. Sabe aquela gente deslumbrada que queria ter nascido em Londres ou Nova Iorque? Pois tenho encontrado essa gama de imbecis com uma facilidade absurda. Em São Paulo isso é mais comum de se ver no meio jovem “alternativo” (que de alternativo não tem nada além da estampa que é sempre uniformizada e em tons escuros porque é cosmopolita).
Outro dia conversando sobre a gravação de “Divino Maravilhoso” feita pelo Ney Matogrosso, a garota me disse que não gostou porque tinha pandeiro na música, depois outro rapaz me fala que não gosta de Rita Lee e que só gosta de Mutantes porque aquilo sim é “rock and roll”, uma moça na PUC me diz “na lata” que odeia canção popular e que só gosta de música eletrônica e que não aguenta ouvir nada que seja imbuído de brasilidade.
Toda vez que passo pela Augusta de noite olho para as baladas da moda e o que vejo são jovens com estereótipos da metrópole, ou seja, que podiam estar em qualquer grande cidade do mundo vestindo sua camiseta dos “Ramones”, seu “all star” de couro preto e seu “jeans” apertado que é fabricado pela Santista, mas tem a etiqueta das grifes da “SP Fashion Week” ou de qualquer outra semana de moda da Europa ou dos Estados Unidos. E nem precisa dizer que a música desses lugares também podia estar tocando em Nova Iorque, Londres, Paris ou Tóquio e é por isso mesmo que essa turma está lá. Pronto! Essa é a receita de sucesso de uma boa noite paulistana.
Em contrapartida nunca se valorizou tanto nossa cultura no mundo como hoje. Há lugares em que saímos da catalogação “world music” para “brazillian popular music” e isso porque temos uma das mais ricas e reverenciadas canções do globo. Hélio Oiticica e Lygia Clark estão sendo redescobertos através de publicações e mostras nos principais pontos de arte e pesquisa que existem. Paulo Freyre na educação, Lúcia Santaella, Cecília Almeida Salles e Arlindo Machado na Semiótica, José Celso Martinez Corrêa no teatro, Machado de Assis sendo publicado na França e muitos outros são nomes corriqueiros quando se fala em Brasil no exterior nas mais diversas áreas. Corriqueiros e referenciais, mas é claro que esse pessoal não está nem aí porque eles gastam o tempo para ficar antenado com as últimas tendências.
Essa semana mesmo tive mais uma prova desse deslumbramento com o que é estrangeiro devido ao falecimento da Ruth Cardoso. Ouvi o seguinte comentário: “Ela sim era um primeira-dama que nos honrava, tinha classe e sabia se comportar. Não essa farofeira mal vestida da Mariza Letícia. Ô casalzinho mais tupiniquim!” Bem, não vou entrar em discussões partidárias, mas o fato é que enquanto a Dona Ruth estava sendo bem formada em colégios e universidades da elite paulistana (tanto financeira como intelectual) e pôde se tornar uma poliglota e teórica, Dona Mariza estava trabalhando de babá, se casando, ficando viúva com uma criança no colo, casando com o Lula, ajudando o mesmo no sindicato, tendo o marido preso, segurando essa barra com o filho que já tinha e mais os filhos que teve com ele e passando os “perrengues” todos que já sabemos e que o PT adora lembrar nas campanhas para elevar a imagem do Presidente.
Isso só nos prova que a Dona Ruth é valorizada não pela sua obra que pouquíssimos devem ter lido ou até por sua atuação como primeira-dama, mas porque ela é o retrato da mulher emancipada ao estilo Sorbonne e a Dona Mariza é mais uma brasileira típica. Isso é que me deixa “puto da vida”! Lembro-me quando, na segunda posse do marido, ela foi muito criticada pela imprensa “nazistóide” devido ao vestido amarelo com o qual se apresentou. Esse vestido – muito bonito por sinal – tinha sido confeccionado por uma cooperativa de costureiras nordestinas e não tinha aquele “quê” de Europa ou Nova Iorque, sabe? Era regional demais!
Não quero parecer purista porque não sou e a prova disso é que ouço jazz, rock, consumo o “american way of life” de cada dia, gosto de música eletrônica e mais um monte de coisas que não são essencialmente brasileiras porque acredito que a produção cultural deve estar ao acesso de todos, não deve ter fronteiras, mas é que me convenço cada dia mais de que, aliado a uma ignorância gritante e um preconceito secular, o brasileiro tem um pavor tremendo de olhar no espalho e encontrar as mulatas do Di Cavalcanti, os “sararás” da Sandra de Sá, os operários da Tarsila do Amaral, as “mamas África” do Chico César, “o preto que você gosta” do Caetano, os Severinos do João Cabral de Mello Neto, as Gabrielas do Jorge Amado, as favelas do Noel Rosa, os Antonicos do Ismael Silva, os cortadores de cana dos artistas primitivos ou, como muitos preferem, naïf e assim por diante. Brasileiro só se sente confortável e orgulhoso em sua posição quando os jogadores da seleção jogam bem e aí é como se esses fossem “perdoados” por serem quase todos pretos. Nesse momento há uma espécie de alforria bem ao jeitinho brasileiro de ser – cínico e bárbaro!
Abraços do Lucas, o mais Franco.