Ele chegou quando não havia mais olhos abertos e refestelou-se, fazendo de mim o ser humano mais saciado, vulgar e sujo de que se tem notícia. Foi tanto abuso e gozo que mesmo ao me banhar para falar com os senhores ainda posso sentir aquele odor de mulher metida com força, humilhada, castigada mesmo! Ah! Se eu soubesse que bastava acabar com tudo para que ele me tratasse como tratava as putas, teria cometido tudo isso antes. Eu nunca pensei que a marginalidade, a privação, a loucura poderia ser tão libertadora! Em pensar que passei tanto tempo limpando a casa, parindo, cozinhando, cuidando de tudo com esmero para ser vista quando, na verdade, tudo o que eu queria era apenas ter uma boca vermelha, um corpo usado, um vestido brilhante, um cabelo sedoso e longo. Eu nunca gostei da vida como era, sabe? Eu estava acostumada, mas odiava aquilo tudo! Não gosto nem dos filhos! Aliás, posso fazer uma pergunta? Eu deixei tudo limpinho, né?
Bem, vocês querem saber como tudo aconteceu, não é? Posso dizer, Doutor? Eu posso?
Eu estava em casa, vendo novela com as crianças. Nossa! Como era difícil lidar com aquelas pestes! Vez ou outra até me pegava em momentos de ternura, mas logo algum chorava e implorava atenção. A atenção que eu só tinha para ele, para o meu homem e não para aquelas crianças que aconteceram em nosso lar sem pedir licença. O fato é que naquela noite ele não veio no tempo devido e eu enlouquecida de raiva pensei que algo devia ser feito e fui até a cozinha, fiz uma mamadeira para cada um com um pouco de calmante. Não tardou muito e os três dormiram rápido! Eu adoro a imagem deles dormindo porque parecem anjinhos tão cândidos e silenciados! As horas foram passando e nada dele voltar. Aquilo foi me dando uma privação mesmo e resolvi que de nada adiantava as crianças dormirem porque eu não seria mulher aquela noite. Então fui até a garagem, peguei uma mangueira de piscina e coloquei uma ponta no escapamento do carro e a outra dentro do veículo fechado. Levei os três já adormecidos para lá, os coloquei no banco de trás um a um. Ah! Como estavam lindos e bem cuidados! Eu sempre fui uma mãe zelosa! Fiquei olhando e nem sofrimento teve. Como ficaram bonitinhos, corados! Assim que percebi que eles tinham dormido para sempre ao lado do Menino Jesus e de Nossa Senhora, os levei para o quarto novamente e os coloquei em suas caminhas. Não demorou muito e logo o meu homem chegou. Eu já estava pronta com minha camisola de renda preta, banho tomado e perfumada. É engraçado tudo isso! Quando adolescente eu me imaginava casada, com filhos, esperando meu marido e na minha imaginação essa cena era tão bela, uma espera doce, afetuosa. A vida é mesmo estranha e tão diferente das cenas que imaginamos no café da manhã.










