
Conversas paralelas são sempre perigosas quando temos ouvidos disponíveis e, via de regra, o que não falta é fogo amigo em qualquer setor de nossa vida pública e privada, mas ao contrário do que pensava até bem pouco tempo, muitas vezes damos a chance para que o outro venha nos envenenar e isso nos torna mais répteis do que a serpente que nos pica, pois nós é que abrimos a porta e chamamos o ser peçonhento.
Eu sempre tive uma dificuldade enorme na luta entre a minha curiosidade e noção de perigo. Por isso vez ou outra acabo ouvindo quem não devia e sendo alvo fácil de minha burrice e fraqueza de caráter. Aliás, duas das minhas características mais evidentes são o fascínio e pavor que o perigo me causa e certa permissividade em nome do prazer ou de qualquer outra coisa que lembre ou pareça com ele. Acho que isso fica tão claro em mim que acabo me deixando levar por pessoas e enredos que eram claramente uma arapuca. Sabe aquela coisa de ir até a beira do abismo para produzir o calafrio de estar vivo e sentindo algo?
O fato é que o chamado fogo amigo é mais uma característica do ser humano e mesmo as almas mais cândidas - se é que isso existe mesmo – acendem tochas dele em algum momento. Algum, não! Em muitos momentos! Tenho cá pra mim que as motivações mais recorrentes são sexo e dinheiro e que isso se dá porque somos desnorteados e não aguentamos conviver com a nossa total insignificância, ou seja, passamos a vida tentando produzir vestígios através de atitudes ruins e boas. Como definir algo tão limítrofe quanto o bem e o mal? Parece estranho, mas acredito que o nosso melhor e o nosso pior caminham de mãos dadas nessa busca incessante e inglória de ser alguma coisa que nem previamente concebemos com clareza. Como o dinheiro gera notoriedade, poder e um certo charme enquanto o sexo nos leva ao óbvio delírio do gozo, é por eles que lutamos, amamos, traímos e até ironicamente morremos. Se não me engano tem até um filme antigo em preto e branco chamado “De Amor Também se Morre”.
Óbvio que você – um dos cinco “à toa” que pararam para ler essas mal redigidas linhas irá se perguntar o porquê de eu estar pensando nisso. Lendo há pouco um trecho do “Evangelho de Judas” em que se afirma que Jesus teria lhe dito: “Você irá sacrificar o corpo do homem que eu encarno”, pensei que se isso aconteceu mesmo, Judas foi alvo de calúnia ou no mínimo de mal julgamento por parte de seus companheiros e que – talvez – tenha sido o mais fiel dos apóstolos, pois teve a coragem e a falta de vaidade de entrar para a história como o traidor, o conspirador, o fogo amigo do salvador sacralizado ao longo de todos esses anos. Quem há de elucidar um questionamento desses? Judas pode ter sido quase tão importante e sofredor quanto Maria, pois a ela coube a tarefa de dar à luz o tão amado mito do cristianismo e a ele coube o indigesto papel de produzir a morte agonizante do mesmo. Porém, se não tivesse Cristo sofrido o que sofreu exatamente da forma como tudo ocorrera, ele representaria papel tão importante no tempo e nos corações de seus seguidores? Teríamos hoje uma cultura, uma civilização cristã? Coloco essa indagação a partir da suposição de que os fatos elencados acima são reais e é claro que qualquer um pode simplesmente dizer: Judas era traidor e seu evangelho uma farsa! Claro que pode! Afinal, se Judas era mesmo um homem de caráter dúbio, ele pode ter inventado essa fala na tentativa de limpar a própria barra de sua túnica coberta do sangue mais puro e sagrado de que já se teve notícia.
Agora pensem comigo: Judas – o amigo próximo - teria traído o que havia de mais sagrado pelo valor de trinta dinheiros! Ah! O vil e desprezível dinheiro sempre maculando corações em nome do profano gozo da vida material. Aquele que ornamenta e enche de beleza, gerando notoriedade e, por fim, sexo. Sim, se Judas era o homem desprezível que dizem que ele era, certamente gastou o ressarcimento de sua delação com mulheres, homens ou os dois gêneros humanos, uma vez que não sabemos qual era a dele na hora de se fartar em regozijos carnais e mais toda sorte de artifícios parar gerar prazer porque é claro que ao produzir o hediondo ato em troca de grana, o cara queria mesmo era boa vida e já estava cansado de peregrinar por aí junto a Cristo e seus discípulos por desertos, vilas, cidades, entre tantos lugares fartos de pobreza e necessidades básicas. Ele queria mesmo era um pano legal, uma casa grande e todos os confortos que havia na época.
Por isso toda vez que me vejo como vítima de fogo amigo indago até que ponto eu quis ser vítima, sanar uma curiosidade inútil e no grau de Judas que há em quem carregava a tocha porque muitas vezes eu e o outro nem fazemos por mal, mas por mal hábito. Talvez por tudo isso Judas seja – para mim – o personagem mais instigante e humanizado dessa trama que tem pautado invariavelmente nossas vidas nos últimos dois mil e onze anos. Foi ele que criou um Cristo eternamente na cruz e o deixou pregado, servindo de modelo às outras que não cansam de nos mostrar. Pense em quantas vezes pregamos e somos pregados e em como isso é natural. Por mais perverso que soe, estamos muito mais próximos das impurezas do que entendemos como bom e sagrado e isso acaba nos constrangendo e excitando também.